Ok, primeiro deixemos de lado a questao do que é popular ou nao. Essa coisa do "virus" parece-me muito snob para a levar a sério, mas ao mesmo tempo preocupante - por isso o melhor é ficar para segundas nupcias.
O problema é este: a nossa profissao nao é técnica, como a de médico ou engenheiro. E' uma profissao artistica, que so' uma regulamentaçao muito basica separa de um escultor ou um pintor (e mais uma vez nao vou discutir se o que temos é suficiente ou nao). Revogar o 72/73 era quase a mesma coisa que dizer que so' os pintores e os escultores é que podiam fazer pintura e escultura - ou seja fechar a sociedade, torna'-la corporativista.
Quanto à concorrencia dos engenheiros e desenhadores, que fazem mais barato, so' ha' uma coisa a dizer: a concorrencia faz baixar os preços, e isso beneficia o consumidor. Revogar o 72/73 é o equivalente a aplicar taxas aos chineses, porque sao baratos demais. E contra isso ja' foi tudo dito aqui.
A nossa paisagem esta' desfigurada? Claro que sim. E sobre isso ha' muito a dizer e a fazer, mas para ja ficam aqui quatro consideraçoes:
1. se forem so' os arquitectos a poder assinar projectos NAO vai haver nehuma melhoria, porque da maneira como funcionam as escolas e o establishment ninguem (arquitecto) é capaz de fazer alguma coisa que nao seja a sua linguagem individual, a sua afirmaçao, o seu objecto (vd Casa da Musica);
2. Nao creio que a soluçao para a concorrencia no sector seja aplicar medidas proteccionistas (a revogaçao nao é mais que isso, disfarçada com um muito bem-intencionado "Direito à Arquitectura");
3. Continuo a ver em tudo isto um profundo snobismo, de esquerda e de direita, que trata o "povo" com um paternalismo e uma condescendencia atrozes. Os desejos das pessoas, por muito absurdos e de mau gosto que sejam, sao delas e ninguem tem o direito de lhes impor o que elas querem - e por pessoas refiro-me a a todos nos, e a mim, que nunca gostei que me dissessem de que é que eu tenho que gostar.
4. Acho que seria mais util lutar por uma liberalizaçao e enriquecimento economico geral do Pais, ja que quando ha' dinheiro de sobra é facil aplica'-lo na cultura. Enquanto se esperar que ele venha do Estado, nao ha' nada a fazer - a nao ser regressar à ditadura e proibir tudo o que ponha em casa o status quo.
2 de maio de 2005
O direito à arquitectura 3
posto pelo Alexandre às 14:45
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2 comentários:
Curiosamente, até concordo em parte com as tuas quatro considerações finais: também tenho dúvidas que a qualidade da paisagem melhore muito se forem apenas os arquitectos a assinarem projectos...
A parte que mais discordo é sobre se a nossa profissão é técnica ou artística.Tenho uma excelente frase do Louis Khan para te responder à questão, mais vais ter que esperar pela próxima "Para uma definição..." no Allegro!
Abraço
p.s. - já agora, porquê 72/73? Eu sempre o ouvi chamar 73/73...começo a ficar um bocado baralhado!
Só agora entro na discussão, apesar de já antes querer escrever, por isso muito do que já foi dito posso subscrever.
Parece-me bem que o Estado não tenha a tentação de proteger uma determinada função social, restringindo-a a um determinado grupo corporativo. É o primeiro passo para uma série de abusos materiais e intelectuais. Mas estou mais ou menos como o Tiago e o Kahn. Ainda não me convenci completamente, mas caminho para acreditar que somos mais técnicos que artistas e mais burocratas do que criativos (um desabafo da experiência profissional recente, talvez!), mas que na nossa forma técnica de fazer as coisas colocamos a nossa consciência imbuída de uma ambição estética (se quiserem artística...), que quer a todo o custo evitar a facilidade formal, e também uma presunção sociológica egoísta sobre o que pensamos ser o melhor para os outros.
Arrepiam-me por outro lado os argumentos para revogar o 73/73, como o número elevado de arquitectos, a falta de trabalho, as outras associações que protegem melhor os seus associados, a concorrência de engenheiros e desenhadores, ou do género "para que é que andei 7 anos a estudar" (como já ouvi dum colega). A mim parecem-me argumentos para quem encara a arquitectura como uma obrigação ou como um indivíduo que pensa que foi agraciado com um dom missionário e que confrontado com a realidade, tenta subverter as suas regras, esquecendo-se ou desresponsabilizando-se pelas opções individuais tomadas.
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